domingo, 13 de setembro de 2026

há uma fome peculiar, muito íntima
    repara como a vergonha
    inflama o meu rosto de sangue

quiseste retratar-me
na mímica do ecrã como papel

guarda para recordares
o quanto esta fome me invade
já que coragem não tenho
para te invadir
com os meus despropósitos

foi por ter nascido a madrugada

mas é fome mesmo, muito íntima
    como canção
    que inflama o coração de saudade

o teu ecrã pode ser outro modo
    de fotografia como papel
    que eu guardaria na carteira
    entre documentos que me identificam
bastaria o teu rosto

ou um jogo  
    jigsaw 
que é cada recorte do teu corpo
    cada detalhe pormenorizado
retalhado para que te reconstrua
nesta inimizade que tenho comigo mesmo
e te contradiz

porque um dia
    vários dias, meses, anos
foste única e inteira
sem ter de me sacudir
inimizado comigo mesmo

em dias de calor
dentro das cuecas
onde não te encontro e nem sequer
ergo
salvação

muito menos que essa fome peculiar
    íntima
me seja totalmente saciada

sem ilação - faz a tua

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