repara como a vergonha
inflama o meu rosto de sangue
quiseste retratar-me
na mímica do ecrã como papel
guarda para recordares
o quanto esta fome me invade
já que coragem não tenho
para te invadir
com os meus despropósitos
foi por ter nascido a madrugada
mas é fome mesmo, muito íntima
como canção
que inflama o coração de saudade
o teu ecrã pode ser outro modo
de fotografia como papel
que eu guardaria na carteira
entre documentos que me identificam
bastaria o teu rosto
ou um jogo
jigsaw
que é cada recorte do teu corpo
cada detalhe pormenorizado
retalhado para que te reconstrua
nesta inimizade que tenho comigo mesmo
e te contradiz
porque um dia
vários dias, meses, anos
foste única e inteira
sem ter de me sacudir
inimizado comigo mesmo
em dias de calor
dentro das cuecas
onde não te encontro e nem sequer
ergo
salvação
muito menos que essa fome peculiar
íntima
me seja totalmente saciada
sem ilação - faz a tua
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