sexta-feira, 21 de agosto de 2026
Se da avareza não fui condenado – eu que sempre dei tudo – pecado meu foi ter sido triste e da minha tristeza trazer ira aos meus próximos. Contra todos me insurgi, mal nascido fui, vagindo por não querer pertencer ao mundo. A minha mãe sem culpa, só fez força para me parir. Dez anos desde aí, decidi ser menos para que outros fossem mais. Afogado num lamaçal de que nunca resultaria a isenção do corpo perante a alma. Fiz tudo pelos outros – o sinal de nenhuma avareza – para passados tantos anos dizer mal de quem me desprezou. Nu, dancei madrugadas fora, enquanto não me cruzaria com os meus pares, mordendo esses, que iguais dores nunca foram capazes de sentir. Só eu sofri! Só eu quis o sol, e me foi recusado. Só eu quis respirar puro, e o ar e me foi negado. Que dizem aqueles, neste lamaçal? Quero agora a tonelada de mar que me engula, afogado à espera da redenção, ressentido pelo que fizeram de mim. Arrogância tive, irascível de temperamento fui. Se só hoje morro, cadáver já sou há muito. E fedo como nunca suportei o quanto fui: não quis o mundo. Quem me amou arrependeu-se. Fedo para todos. E sou incontinente perante vulvas e mamas, lambendo e chupando o impossível, enquanto me mijo e me cago. Fedo de medo. Se nunca quis ser, sei lá agora quem sou!
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